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Perícia contratada pela família de Camila Wanderley detalha sequência de erros da equipe médica: "Saturação em 22%"; "Cirurgia seguiu com a paciente praticamente morta"

Ao lado do leito de UTI onde está Camila Miranda Nogueira de Menezes, o pai Roberto Nogueira segura foto da filha. (Foto: Leo Caldas/FolhaPress).      
Ao lado do leito de UTI onde está Camila Miranda Nogueira de Menezes, o pai Roberto Nogueira segura foto da filha. (Foto: Leo Caldas/FolhaPress).      

Família acusa médicas do Recife de omissão após cirurgia causar dano cerebral grave em Camila Wanderley, que é servidora pública e consultora de moda que mora e trabalha em Arcoverde.


Camila foi internada no dia 27 de agosto de 2025 para retirada da vesícula e correção de hérnia inguinal, dois procedimentos de baixa complexidade – o primeiro é um dos mais realizados no Brasil.


Após receber anestesia geral, ela teve sete apneias seguidas que culminaram em uma parada cardiorrespiratória, segundo a perícia independente que a família contratou para apurar o que aconteceu durante o procedimento.


A paciente teve um dano grave no cérebro, perdeu funções básicas e está internada em UTI (Unidade de Terapia Intensiva) desde então.


O documento da perícia, divulgado com exclusividade pela Folha de São Paulo, afirma que as médicas ignoraram os alertas do monitor multiparamétrico e prosseguiram com a cirurgia. O equipamento teria alertado sobre a queda abrupta da saturação de oxigênio dezenas de vezes durante um período de 27 minutos.


A defesa da família denunciou uma das médicas ao Cremepe, que é o Conselho Regional de Medicina de Pernambuco. Em nota, a instituição diz que apura e que "todas as denúncias recebidas e sindicâncias instauradas pela autarquia correm em sigilo processual para não comprometer a investigação".


Por meio de sua assessoria de imprensa, o Hospital Esperança afirmou que as médicas não trabalham na unidade e foram escolhidas pela paciente.


A defesa da cirurgiã Clarissa Guedes Noronha afirma que a cirurgia foi realizada com absoluta precisão, e que o monitoramento dos sinais é uma atribuição técnica da anestesiologia.


A defesa da anestesiologista Mariana Parahyba foi procurada e afirmou que se pronunciaria até segunda-feira (26). Na terça (27), uma advogada que presta assessoria à médica disse que não irão se manifestar no momento.


Camila Wanderley é servidora pública, consultora de moda e tem um quadro com dicas de moda e beleza dentro do programa De Primeira Categoria, na Itapuama FM. (Foto: Reprodução/Instagram).
Camila Wanderley é servidora pública, consultora de moda e tem um quadro com dicas de moda e beleza dentro do programa De Primeira Categoria, na Itapuama FM. (Foto: Reprodução/Instagram).

Camila Nogueira é servidora da Justiça no Estado de Pernambuco e filha do juiz federal Roberto Nogueira, do TRF-5 (Tribunal Regional Federal da 5ª Região). Casada e mãe de dois filhos, divide o tempo entre o emprego público e as atividades de consultora de moda.


Na Rádio Itapuama, Camila Wanderley tem um quadro com dicas de moda dentro do programa De Primeira Categoria.


Segundo o pai de Camila, "ela não fala, não anda, não vê. Respira sozinha, mas perdeu as partes cognitiva e locomotora. Quando eu fico com ela, a olho o tempo todo. É como se fosse um bebê de novo", diz o pai.


Registros de câmeras de segurança do hospital mostram que Camila chegou andando na unidade por volta das 5h. Ela deixa o elevador acompanhada pelo marido, o médico oftalmologista Paulo Menezes. A admissão no hospital ocorre às 5h24.


Às 10h47, o monitor multiparamétrico emitiu o primeiro alerta para apneia, segundo a perícia particular contratada pela família. O alerta, diz a perícia, indicava "problema grave: desconexão, obstrução ou falha ventilatória". O documento afirma que o quadro evoluiu para alta prioridade, já que Camila teria ficado 1 minuto e 42 segundos em apneia [interrupção da respiração], o que exigiria ação imediata.


A segunda apneia aconteceu às 10h56, de acordo com o documento da perícia. "Problema ventilatório recorrente não resolvido", classifica o laudo, indicando que a saturação da paciente caiu de 88% para 61% em 67 segundos.


Juiz federal Roberto Nogueira, pai de Camila Wanderley, acusa duas médicas de omissão durante uma cirurgia eletiva no Hospital Esperança, unidade da Rede D’Or no Recife. (Foto: Léo Caldas/Folhapress).
Juiz federal Roberto Nogueira, pai de Camila Wanderley, acusa duas médicas de omissão durante uma cirurgia eletiva no Hospital Esperança, unidade da Rede D’Or no Recife. (Foto: Léo Caldas/Folhapress).

Em entrevista à Folha, o médico Leonardo Queiroga Marinho, que assina o documento, afirma que a falta de intervenção indica erro grave de omissão, mas destaca que a avaliação depende dos órgãos competentes. Os dados do quadro clínico de Camila foram obtidos com o hospital, por meio do cartão de memória dos aparelhos.


"Todas as informações, como pressão e saturação, são mostradas no monitor para o médico acompanhar instantaneamente. Esse equipamento tem vários sensores, alarmes visuais e é primordial para procedimentos cirúrgicos", afirma Queiroga.


"Essas informações ficam registradas em um cartão de memória, sob o controle do fabricante, que repassa em casos de solicitação do hospital. Com acesso a esse equipamento, conseguimos fazer a análise do quadro segundo a segundo", diz.

De acordo com o relatório da perícia contratada pela família, a terceira apneia acontece às 11h04. "Problema ventilatório crônico não resolvido há mais de 17 minutos", afirma o laudo.


Às 11h05, o quarto; às 11h08, o quinto – a essa altura, a saturação de paciente é classificada como "extremamente crítica", com 22%, incompatível com a atividade cerebral.

Em uma pessoa saudável, a saturação de oxigênio no sangue costuma ficar entre 95% e 100%. Valores abaixo de 90% já indicam hipoxemia e exigem atenção médica. Abaixo de 80%, o quadro é considerado grave.


Às 11h11, esse percentual reduziu para 5%. A quinta apneia aconteceu às 11h16, e Camila teve uma parada cardiorrespiratória, com ausência de sinais vitais.

Nesse momento, a equipe de reanimação é acionada. A paciente volta a ter sinais vitais às 11h33, após 15 minutos de parada. Ela ainda teve mais uma apneia antes de ser transferida para a UTI, às 12h42.


As câmeras do hospital mostram a transferência. A anestesiologista Mariana Parahyba aparece ao lado da equipe de enfermagem, usando o celular com uma mão, enquanto manuseia o ambu (aparelho de ventilação manual) com a outra.


Além da denúncia ao Cremepe, a família prepara uma ação judicial, segundo o advogado Igor Cesar Rodrigues. "Nós queremos que todos os crimes cometidos no decorrer desse procedimento desastroso sejam apurados, bem como reaver os danos materiais decorrentes", diz.


"A cirurgia seguiu com a paciente praticamente morta ali na mesa. Defendemos que é uma conduta dolosa. É como pegar um carro em uma avenida movimentada, avançar o sinal vermelho, causar um acidente e continuar avançando", compara Rodrigues.


"Os filhos vivem perguntando por ela. O mais velho, Arthur, de seis anos, criou uma espécie de defesa, não quer falar sobre o assunto. Eu passei dois meses morto-vivo depois do que aconteceu. Pedi a Deus para me levar no lugar dela. Ela era minha amiga, conselheira, quem me dava sermão", lembra o pai.

O Hospital Esperança disse que prestou "todo o suporte necessário assim que tomou conhecimento da intercorrência". "O hospital reafirma seu compromisso permanente com a qualidade assistencial, ética, a transparência e, sobretudo, com a segurança de seus pacientes", diz a nota.


A defesa da cirurgiã Clarissa Guedes diz que reitera seu profundo respeito e solidariedade à família "diante do trágico evento adverso ocorrido".


"A atuação técnica da doutora Clarissa durante a colecistectomia (cirurgia para retirada da vesícula biliar) foi executada com absoluta precisão e sem qualquer falha de execução, não havendo qualquer intercorrência ou falha no ato cirúrgico propriamente dito. Portanto, inexiste nexo de causalidade entre o agir de Clarissa Guedes e o dano neurológico sofrido pela paciente. É fundamental ressaltar que a função do cirurgião exige concentração absoluta no campo operatório, sendo o monitoramento uma responsabilidade da anestesiologia", afirma.


Essa reportagem é exclusiva do Portal Folhapress com apuração e redação dos jornalistas Luis Eduardo de Sousa e Josué Seixas da Folha de São Paulo.


Da redação/Itapuama FM.

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